#58. As luzes evanescentes
O sentimento do passado, o medo do presente e a promessa do futuro, em cinco partes breves
UMA DAS MARCAS DE NOSSA IMPERFEIÇÃO ESTÁ NA MEMÓRIA. Não digo na falta dela, mas até no excesso. Especialmente quando vivemos mais de três décadas, ela costuma nos pregar uma peça: os anos acumulados nos fazem lembrar do passado como uma época de alegrias quase idílicas, em que tudo era bom, simples e agradável. Se fôssemos racionais nessa hora, veríamos que não foi bem assim; mas a memória mesma recusa a negação desse fato. Ela faz questão de relembrar nosso passado com doçura e sublimar os dias maus, quase apagando-os, mesmo que até enfrentássemos muita ruindade naquelas circunstâncias.
Como escapar da sensação? Bem, de fato nem queremos deixar de tê-la, pois ela nos faz bem ao assentar-nos na segurança da experiência vivida. Temos o controle do que passou, ou assim parece. Quer dizer, ao pôr em perspectiva nosso passado agora rememorado, sentimos nossos pés firmes no presente e nos imbuímos de confiança — a imediata, ao menos —, pois lembramos de todas as provas superadas. Quer dizer, já passamos por algo semelhante ou pior lá atrás, de modo que de alguma forma vencemos aquilo. Agora, então, sabemos como pensar e agir, se não para resolver, ao menos para não se preocupar tanto com uma situação indesejada que, se olharmos bem, não é tão feia quanto parece.
Esse é o lado positivo da experiência passada; há também o lado negativo, de ordem interna e particularíssima, que é a lembrança da, nas palavras de Bandeira, “vida que podia ter sido e que não foi”. Nessa toada, há ainda coisa pior, difícil de explicar: algo como uma lembrança da promessa de felicidade, que, quando feita, especialmente no início da juventude, exigiu-nos em contrapartida, para seu cumprimento mais à frente, uma série de renúncias e condutas disciplinadas, além de uma sorte de adiamentos e desistências sucessivas; talvez um conjunto de posturas sérias, adotadas sempre em nome do bem maior: a tal felicidade prometida num futuro breve.
E essa promessa, sempre à frente, sempre por atingir, insinuava por sua vez garantir que a estrada rumo a ela era segura e pavimentada, bastando ao peregrino — nós, no caso — percorrê-la com afinco e dedicação, enquanto, do lado de fora, as circunstâncias todas permaneceriam iguais na média; boas ou ruins, elas seriam ao menos conhecidas, e portanto controladas de alguma forma.
Mais uma vez parecia tão diferente
Oh, se pudéssemos fazer tudo de novo
Agora, porém, é só outra memória evanescente
Fora de foco, apesar do contorno ainda permanecer¹
*
[ Another time it might have been so different
Oh, if only we could do it all again
But now it’s just another fading memory
Out of focus, though the out line still remains… ]
2
Para além desta impressão do tempo inerente à condição humana, é fato que neste século ocorre outra coisa diferente na essência, de outra natureza, e fora de nós; algo abrangente, atmosférico e inexplicável. Tanto inexplicável quanto tentamos forçar nela algum sentido, rastrear as origens, definir as causas; algo que se move indefinido e difuso, como uma sombra que se movimenta ao longe e não identificamos o dono dela, embora notemos o movimento e sabemos que o ente existe e deve existir, dado os seus efeitos posteriores sentidos bem perto de nós. Neste século 21, paira qualquer ressaibo de traição e emboscada que nos leva a vigiar e vigiar, enquanto por fora mantemos a calma.
Então, para além dessa impressão particular, e para além da inquietação que a impermanência do passado que não devia passar nos causa, surge agora mais esse ente misterioso, um espírito sabotador que não nos deixa ter confiança. Nesse instante, a estrada rumo à promessa de felicidade parece trevosa e incerta, e seu trajeto parece modificar-se a cada quilômetro percorrido, dificultando-se cada vez mais. Não a controlamos como ao nosso passado. O que já passamos pode ser entendido; a nova fase, não. Ela só nos dá suspense e apreensão.
Aqui, uma decisão se coloca em nosso caminho: simplesmente continuar a caminhada ou parar? E se desistirmos e tentarmos voltar? (Volta que sabemos não ser possível; voltar no tempo não é possível).
Longe, bem ao longe, as luzes se desvanecem, distantes
Deixando-nos todos para trás, perdidos num mundo em mudança
E, sabe, estes são os dias em que vivemos, lembre-se
*
[ Far away, away, fading distant lights
Leaving us all behind, lost in a changing world
And you know that these are the days of our lives, remember ]
3
Como vencer esta má sensação dos tempos? É possível? Porque, apesar dos sentimentos apreensivos que ora nos acossam e ora esquecemos num alívio providencial, é preciso também lembrar que chegamos até aqui, que Deus nos trouxe até aqui. E não foi à toa nem por acaso.
Se lá atrás, depois de passar por tantas coisas, olhamos para a promessa de felicidade feita de tal modo convincente que decidimos caminhar rumo a ela, a caminhada agora passa a ser mais que opção: é a única escolha possível. Cientes de que o tempo não volta, devemos ir em frente, pois são estes os dias em que vivemos. Esses dias são nossos. É agora a nossa vez e nossa chance de vencer o mundo, como disse o Cristo.
Nesse processo, contudo, temos muita dificuldade em manter o coração leve, livre de cuidados e preocupações. Temos, além do mais, uma imensa limitação em separar nossa necessária harmonia interior das desarmonias do mundo à nossa volta. Isso porque, entre outras coisas, sabemos demais: saber, aqui, não no sentido de acúmulo de conhecimento, mas de entulho informativo. Sabemos de pessoas e situações que não nos dizem respeito de maneira alguma, e que de fato viveríamos muito bem sem saber. Tanto assim que, até o instante que antecedeu o conhecimento daquele fato inútil, vivíamos normalmente. Agora, porém, estamos apreensivos, cheios de angústia, como se do nada o mal passasse a nos espreitar.
Claro, também há as mazelas particulares. Problemas pessoais. Doenças, dívidas, preocupações com o amanhã, medos diversos. Então, nos apegamos à nostalgia, aos bons momentos do passado, recorremos a isso: lá atrás tudo era mais simples e previsível. Lá atrás não havia temor nem a incômoda sensação do desconhecido. Antigamente era assim — ou nossa ilusão assim diz.
Feito história que queríamos nunca ter fim
Sabemos que um dia chegaremos à página final
Ainda assim prosseguimos simplesmente fingindo
Que sempre haverá mais um dia por vir
*
[ Like the story that we wish was never ending
We know some time we must reach the final page
Still we carry on just pretending
That there’ll always be one more day to go ]
4
Entre o drama do passado que não volta e a promessa futura que não se concretiza, há o refúgio da nostalgia. Veja, a nostalgia não é exatamente má; porém, o vício dela, o apego a ela, sem dúvida é.
Porque a nostalgia nos cega para as compensações efetivas do tempo presente. De fato, o agora tem seus aspectos positivos, mas a pressa e a desatenção nos impede de enxergá-las. Ver a beleza do agora requer calma, pausa e contemplação. Requer fazer menos e olhar mais, uma lentidão necessária.
A beleza do agora está sobretudo nas pequenas coisas ao nosso redor, nas boas continuidades do dia a dia; nas coisas variadas, que só não percebemos porque, primeiro, olhamos muito às belezas do passado (de novo, a armadilha da nostalgia); segundo, por isso mesmo, desdenhamos do nosso hoje e nos furtamos a ver o bem que nos abrange no momento. Mesmo os bens presentes no mundo lá fora, e aliás, principalmente nele.
De resto, seja como for, o bem não foi abolido nem vencido pelo mal. Se procurarmos com atenção, mesmo hoje, encontraremos o bem aqui, perto da gente. Falo do bem verdadeiro e perene, não do falso e do impingido. Ver o bem no agora não invalida de modo algum as melhores lembranças que carregamos conosco, nem nos força a desistir delas.
A nova chance de um oi, um outro adeus
E tantas coisas que jamais veremos novamente
Dias vividos tão sem importância aparente
Parecem importar e hão de contar muito depois
*
[ Another chance hello, another goodbye
And so many things we’ll never see again
Days of lives that seem so unimportant
They seem to matter and to count much later on ]
5
O mundo muda porque a sociedade muda. A sociedade muda porque há mandantes que a fazem mudar e também porque ela aceita, de variadas maneiras e misteriosas razões, se deixar mudar. Para o bem e para o mal. Entretanto, todo o mundo é composto de mudança, Camões dizia; mas nós, você e eu, não precisamos mudar junto com ela por dentro. Sem dúvida, haverá arranjos a fazer, adaptações, conciliações impostas e mesmo indesejadas, se quisermos nos mover dentro dela pela necessidade, sabendo que não há muito como escapar dessa convivência forçada.
Então, no caminho rumo à promessa (lembre-se: estamos na estrada e não paramos de caminhar; continuamos, entre hesitações e avanços), então, no caminho rumo à promessa de felicidade devemos nos abrigar das intempéries, proteger-nos dos ladrões e malfeitores da estrada, esquivarmo-nos dos perigos em geral. Devemos, além de tudo, confiar no Alguém maior do que nossa limitada capacidade, Alguém que domina sobre toda e qualquer espécie de maldade dos homens e sua sociedade: Deus, o próprio.
Ele nos deu a vida nestes dias e este tempo é o nosso, com exatamente esses desafios e dificuldades com os quais devemos lidar. Se precisamos viver no hoje, Ele saberá porque assim determinou que o fosse. Se cá estamos, devemos continuar e continuar rumo à promessa, que decerto chegará, não nos compete saber quando.
O que fazer enquanto isso? Prestar mais atenção às belezas do trajeto: o canto de um pássaro, o curso de um rio que corta o caminho, a brisa que alivia o calor, a vegetação que nos serve de cenário, uma súbita solidariedade de um companheiro de jornada ou até de um estranho generoso.
Se chegaremos lá, isso é com Deus. O importante é prosseguir, prosseguir e prosseguir: até a promessa cumprida ou ao desconhecido termo de nossos dias. Ele tudo sabe.
¹ Fading Lights. Composição: Tony Banks, tecladista da banda Genesis. A música fecha o álbum We Can’t Dance, de 1991. Tradução e adaptação livre.
A pena e a lira
Estou a um tiquinho assim de cravar que a prosa de ficção americana está pouco se lixando para os badulaques do vernáculo (deles, digo).
Ali, a preocupação número um, dois, três, cinquenta e sete é com a narrativa, com a história. Se, claro, com isso vier uma prosódia, uma eufonia, melhor será. Mas lá não ocorre assim: a literatura americana pratica uma objetividade sem paralelo na hora de contar histórias. (Há exceções, claro: Henry James, Poe, Hawthorne, Lovecraft...)
Nós, aqui no Brasil, fazemos o oposto: gostamos do lirismo mesmo que a história quase nem apareça – e às vezes não aparece mesmo. Por isso que aqui chamamos nossos grandes escritores pelo nome, mas seus personagens, quase nunca. Lá é o oposto: reina o personagem porque reina a história, o enredo.
Contudo, não há proibido em literatura. Quem se aventura a escrever está por sua conta e risco e deve aguentar o que de bom e ruim vier em relação à obra publicada. Em minha muito modesta opinião, porém, acho que estamos bem servidos de lirismo em língua portuguesa, nosso estoque é imenso. Falta em nossas paragens mais histórias, cuja linguagem seja meio e não fim. E nem por isso ela precisa deixar de encantar. Somos latinos e ibéricos, queremos música nas palavras.
O caso é que a ficção existe para contar histórias, afinal. Também não há qualquer dicotomia entre lirismo e a pura prosa, mas a obrigação da grandiloquência serve de camisa de força à criatividade ficcional. Dizer bonito, mas dizer o quê? Eis a questão.
Seria isso desculpa para escrever mal? Arreda de mim, Satanás! Amo texto bem feito.
Se fosse para chegar a um veredito, ficaria com a história antes da lírica. Afinal, no lírico estamos bem servidos em nossa poesia desde sempre. Nossa linguagem poética é das melhores e não nega um copo d’água a quem tem sede. Bebamos dela. E contemos boas histórias.
Filigranas
Claro que Nietzsche estava certo com aquele negócio de se olhar o abismo, o abismo te olha de volta. Mas só quem olha deve se preocupar. O abismo te olha com desdém. Significa dizer que só um lado deve tomar cuidado: o outro já se perdeu há muito tempo.
Mulheres, amo-vos. Mas contudo todavia eu quereria que vossa participação nos feudos outrora masculinos (transmissão de futebol, por exemplo) trouxesse algo meio “uau, precisava realmente uma mulher aqui!”. Mas contudo todavia a mulher ali não substitui nem um homenzinho bastante fraco e água de miojo...
São Paulo, a capital de mil defeitos e qualidades. Mas quem fala mal de São Paulo desde outra cidade, o que faria aí se lhe cortassem a internet donde falas mal? Na terrível São Paulo sobra opção.
Contra o larannjão Trump, grávidas diria bastante imprudentes tomaram Tylenol aos punhados. Uma disse: “eu acredito na ciência!”, sem saber que essa frase é cientificamente sem sentido.
As pessoas costumam escrever bem os temas pelos quais se interessam. Por isso, jornalistas em geral (complete a frase).
Quem disse
“O que devemos fazer não é procurar: é descobrir. Não é julgar, mas observar e compreender. É ingerir e assimilar o que ingerimos. Devemos sentir o nosso ser inteiramente voltado e ordenado para o todo. Só então teremos para com a natureza um relacionamento verdadeiro.”
— Hermann Hesse
*
“O romance é praticamente uma forma protestatória de arte; é um produto da mente livre, do indivíduo autônomo.”
— George Orwell
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“O que é a glória? É ouvir um monte de asneiras a seu próprio respeito.”
— Gustave Flaubert
Direto do almoxarifado
Bicho romancista, filhote romance
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Em meu post mais recente, falo do clássico contemporâneo Stoner, de John Williams:
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